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Tuesday, July 29, 2014

Décima Sexta Epístola

Nikiszowiec - Arredores de Katowice, Vitor Vicente, Julho de 2014


Dear K. 

Durante muito tempo, necessitei de silêncio para ler e, sobretudo, para escrever. Depois, sem que tenha dado conta da mutação, o silêncio metamorfoseou-se numa certa banda-sonora, tendencialmente a cair para o Jazz e sempre instrumental. 
Mas em Katowice a acústica é outra. Alterno entre o vai e vem da auto-estrada que chega ao alto deste décimo andar e o televisor ( e voltar a dizer televisor em vez de TV, tem para mim uma ternura do tamanho do mundo). 
Acima de tudo, o que te quero dizer, K, é que adoro a tua orquestra. Como ela toca as sinfonias do silêncio Silesiano, entrecortado pelo chegar e partir de um ou outro "tram", de um ou outro programa de televisão, também ele entrecortado por um ou outro "reklama" (e o fato de a palavra "reklama" ecoar a palavra "reclame",  palavra que eu entretanto esquecera, também tem para mim tanta ternura). 
Tudo o resto é ruído humano, demasiado humano para que nem precise ser expulsado pela orelha por onde não entrou. É que, chegado a este estágio, já quase nada me entra por orelha nenhuma. Cheguei à chamada surdez seletiva e sou snob até à ponta das orelhas com que pouco mais mais ouço do que o silêncio Silesiano e a acústica de Katowice. 

Friday, July 25, 2014

Décima Quinta Epístola

Spodek - Katowice, Vitor Vicente, Junho de 2014

Dear K. 

Vivo no teu seio há um mês, mas é como se tivesse vivido aqui toda a minha vida. Essa sensação é derivada do meu vasto conhecimento do mundo. Não, K, não tens com que te preocupar contigo. Não és mais, nem menos misteriosa do que as demais cidades. Sou só eu que, depois de ter passado pelas cidades dos cinquenta países que conheci, rapidamente capto o vai-vem, as várias vibrações que movem um perímetro de terra a que se logrou dar um nome próprio.
É certo que ainda me perco a traçar caminhos dentro de ti. Tão certo como que me irei continuar a perder. Não entendo patavina do teu idioma, apenas uma palavra ou outra. O suficiente para saber que, por mais que aprenda o teu linguarajar, se assim o quiser, sempre estarei nalgum lugar, longe, onde tudo possa reduzir a ruído humano.
Quero ainda acrescentar que me sinto estrangeiro e contente com esse estatuto. Que, pela primeira vez, existem os da casa e poucos patos bravos como eu. Que, por mais que me custe ter que andar uma hora de autocarro até Cracóvia e de lá nunca me apeteça voltar, quando regresso, sei que é no teu seio que me quero aninhar. 
Tens o condão de me fazer sentir em casa, sem o sufoco que sente quem em casa está condenado a permanecer para sempre. Que o teu calor e até a tua comida imprópria para o calor, que os teus parques perigosos, assim como as tuas perigosas estradas, tudo isto, misturado, afinal me transporta até aquela casa de férias de que a criança que fui sempre careceu.
E tudo isto é compatível com o fato feérico de haver quem aqui viva como se aqui se pudesse viver a vida de todos os dias. Já não me espanto como me espantei com quem burguesmente morava em Barcelona. Conheço demasiado mundo para captar quase todas as cidades em cinco dias. Leio o singular através do arquétipo. O que foi também o fruto das horas que passei a estudar Filosofia. Bebo dessa fonte, sem que pouca gente perceba porquê. Lá está, quedam-se pelo particular, pelo comezinho e ainda se acham os maiores por limparem o cu a papel higiénico devidamente reciclado. 

Wednesday, July 23, 2014

Décima Quarta Epístola

As tentações de Katowice, Vitor Vicente, Julho de 2014

A ti, D., me dirijo, na derradeira noite neste décimo andar. Noite em que, esperava, estar a escrever algo mais elevado, muito mais elevado do que isto. Algo do tipo: "do alto deste décimo andar me despeço" e assim se parecesse à epístola de um suicida, pois todas as despedidas têm o seu quê de luto.
De luto ficamos nós quando não matamos o desejo. Mais ainda quando ficámos a um pequeno passo. 
Ainda no táxi, eu vi quatro long legs, de calções, a aproximarem-se do que, nessa noite, ainda seria o meu prédio. Na hora, pensei se, por uma noite, ainda poderíamos partilhar o mesmo prédio, que é como quem diz o meu quarto.
Saí do táxi e senti as quatro long legs, mal grado a ausência de troc-troc, atrás de mim. Cheguei à porta alguns segundos antes delas, a tempo de a abrir: primeiro para elas, depois para mim. Sorriram.
Sorriram, de novo, quando as vi à entrada do elevador. Não me engasguei a perguntar se viviam aqui e a acrescentar que, assim sendo, seríamos vizinhos até amanhã. Perguntaram-me onde iria viver, confirmei onde era o meu novo bairro, congratularam-se com o fato de ser perto. Uma delas, que parecia mais embriagada em todos os sentidos, ainda me disse que queria ir a essa festa. Mas eu só disse que, por enquanto, estava no décimo andar. Até amanhã de manhã. Mas não frisei que é a festa era aqui e agora. Não as convidei a tomar cervejas que, por acaso, até tinha no frigorífico. E assim foi-se a festa.
E estas, dear D. ficam-me atravessadas. Não até amanhã de manhã, senão para sempre, pelo menos em todas as manhãs em que acorde sozinho perante a imensidão do mundo. Especialmente nessa derradeira noite no décimo andar em que, em vez de estar a escrever algo lírico, acabei por escrever algo que lastimo. À falta de ejaculação, valeu-me a escrita enquanto exercício de exorcismo. 

Décima Terceira Epístola

Pistacchio - Gelataria no Bairro Judeu de Cracóvia, Vitor Vicente, Julho de 2014

Dear K.

Mal sabes tu o gozo que eu tenho em saber que o meu sémen circula, junto com o teu sangue semita, através das tuas veias.
Talvez, desconfies. Eu até me descosi, várias vezes, entre as várias canecas de cerveja que gentilmente trouxeste à mesa. Também maneiras te desvelei que, de vez em quando, me dá para escrever.
Não, não me contive. Todo o conjunto da tua cara, aliado às tuas long legs, foram demais para poder ter ficado calado e/ou quieto. Dirão alguns que demorei a dar-te o primeiro beijo. Como sempre, contraponho com a minha timidez. Em que ninguém crê, a começar por mim. 
Sou sarcástico, eu sei. Mas o assunto é serio, esse o de o meu sémen circular, junto com o teu sangue semita, através das tuas veias. Assunto transcendental, união milenar que encontrou em dois corpos o lugar de reencontro e na sede do sexo a saída para uma certa sensação de alívio, de quem sacode o sufoco.
Como se tivéssemos num cerco, numa espécie de gueto. Pressionados sempre por pessoas que não percebem como podemos nós nascer e morrer com a mesma imperdoável idade.
Eu não aspiro à absolvição. Basta-me a benção de saber que a esta hora, estendia na tua cama como estendida ocupaste todo o meu sofá, o meu sémen circula, junto com o teu sangue semita, através das tuas veias. 

Sunday, July 20, 2014

Décima Segunda Epístola

Álcool 24/7 no Bairro Judeu de Cracóvia, Vitor Vicente, Julho de 2014

Dear J.,

Já não estás aqui, mas é como se por aqui perto continuasses. Mais do que me teres trazido a vida que tenho dentro das malas, trouxeste-me uma humana aragem, justamente quando eu me encontrava moribundo para o mundo. 
Tu não sabes, muita pouca gente o sabe. Eu próprio sou uma dessas pessoas. Um dos tantos que ignora que eu tenho sido o meu pior inimigo. 
Nem sempre tenho levado a minha solidão da maneira mais saudável. Deixo que o tédio me destrua os dias, me deprima. Me leve a desistir e a, desinspirado, não ter outro intento senão auto-destruir-me.
E não, não é só com o sabido álcool que me auto-destruo. O álcool, quando o tomo à luz do dia, deita-me abaixo. Como se a luz do dia me encadeasse o cérebro e tudo escuresse e entristecesse. 
Preciso mais de ti do que tu pensas. Inclusive, das tuas queixas, das tuas neuras por razão nenhuma e das tuas paranóias que tão bem combinam com essa narigueta.
Basicamente, preciso da tua proximidade humana. Para equilibrar esta extensa solidão acumulada.  

Décima Primeira Epístola

Um dos cento e tais quiosques em Cracóvia, Vitor Vicente, Julho de 2014

Dear T.

Assim que cheguei ao apartamento que aluguei em Cracóvia, poucos minutos depois, dei conta de que deixei a caneta em casa - que é como quem diz em Katowice, o que soa estranho, quase tão estranho como andar de autocarro durante uma hora para vir aqui dormir duas noites.
Adiante, que se faz tarde. No entanto, fez-se fácil a empresa de encontrar uma caneta por estas bandas.Ao fim de dez minutos, comprei uma caneta num quiosque. No fundo, é para isso que existem quiosques: porque ainda existem pessoas que escrevem com canetas. E vice-versa. Pessoas que ainda escrevem no papel, que ainda escrevem postais e, quando se põem a escrever emails, escrevem-nos longos, pela simples razão de se esquecerem de que estão a escrever eletronicamente.
Quiosques como estes, com canetas, jornais e bugigangas, só continuam a existir em cidades charmosas como Cracóvia, ou dadas à inteletualidade, como Buenos Aires (By the way, a Argentina está a jogar agora e o pessoal no bar está a assistir).
Mas não me interessa. Tudo o que te quero dizer, T. é que não te tenho mais como tirana. Antes como orientadora, enquanto diretriz. Matrizes, pró-isto ou anti-aquilo, todos temos. 
Ao menos nós, tradicionalistas, sabemos ao que vamos e o que vemos. E de mais nada precisamos, para não nos sentirmos vedados, mas sim desvelados. 

Tuesday, July 15, 2014

Décima Epístola

A Cidade Velha de Cracóvia, Vitor Vicente, Julho de 2014

Dear R.,

Qual Cluj Napoca, qual quê? Cracóvia é que é. 
Isto é do caralho. Tenho a testostorona aos saltos. Nunca vi tantas gajas giras por m2. A Polónia tem o perímetro do paraíso.
Sem exagero. Só há uma justificação para não se ter visto uma gaja gira: é ter estado distraído a olhar para outra.
São ao pontapé. Dão-nos pontapés. Com o troc-troc, até nos conseguem chocalhar os colhões.
Perdoa-me, meu amigo, por te escrever neste termos. É uma consequência da fauna de uma cidade como Cracóvia. O sexo sobe-nos, soberano,à cabeça. Os sentidos têm a supremacia em todos os...sentidos.
Claro que Cracóvia é uma cidade charmosa, de edifícios estupendos e ruas cheias de história. Isso e muito mais. Incluindo, as (muitas) mulheres.
Tu tens que cá vir e deixar a tua nova vida nessa casa que não é tua. Não tragas talheres, nem toalhas. 
Vais ver que Cracóvia é do caralho. E vê-las por um canudo também.

Nona Epístola

Concerto de encerramento do Festival de Cultura Judaica em Cracóvia, 
Vitor Vicente, Julho de 2014

Dear G.,

Está um gajo com um kipah enorme à minha frente. Quase que nem consigo ver o palco. A kipah até que nem é tão grande. Da kipah cresce é um par de cornos. 
Não, não foi preciso ter visto este tipo para te poder ter visto no Festival de Cultura Judaica em Cracóvia. Estas coisas são a tua casa. Música, teatro, cerveja, comida, cultura, convívio. Mais do que ser o teu genético povo ou a tua casa, é como diz o teu outro povo: é a tua cara.
Se já aqui vieste, tenho a certeza que gostarias de cá voltar. A menos que, tal como noutras coisas, o prazer se sintetize na frase: toca e foge. 
Todo este contexto faz com que te tenha na cabeça, até à ponta da kipah que não trago e que, como muitas outras coisas, ainda estão em malas que ainda não me chegaram às mãos. Quando digo, o contexto, digo este festival e o mundial de futebol. 
Tu chegaste primeiro à cidade, pois cabe chegar primeiro quem de mais longe vem. Ficaste a fazer compras, que é como quem disse a fazer tempo. Ou será ao contrário? Digamos que fizeste compras na cidade para (chamemos) Inglês ver.
Encontrámo-nos num pub a poucos passos do hotel. Do dito não saímos durante dia e meio. De dentro de ti não saí, senão para voltar a entrar por outra via. 
Dessa cidade, não vi quase nada. Tal como agora, por causa de um par de cornos, não vejo nada. Mudam-se os palcos - mudam-se pouco mais do que os palcos.  

Friday, July 11, 2014

Oitava Epístola

Entrada do Jewish Community Centre de Cracóvia, Vitor Vicente, Junho de 2014

Dear G-d,

Estou na Polónia, minha casa de férias, mais concretamente em Cracóvia, Tua terra e casa também, por todas as terras e o tamanho do mundo perfazerem o perímetro de Tua casa. 
Apesar de estar na minha casa de férias, de vez em quando, dá-me para consultar as notícias, ver como vai a vida. É num desses momentos que fico a saber que, como vingança pelo sequestro e assassinato de três adolescentes Israelitas, mataram um moço muçulmano.
Não me cabe dizer que é condenável. Só reforçar o quão é claramente condenável. Ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém, a não ser por legítima auto-defesa. Sobre este assunto, penso, é fácil chegar a um acordo. 
Tanto assim que Israel, nação tão dada à discórdia interna, condenou e quase em uníssono este crime. Sim, chamou a coisa pelo nome: crime. E, como tal, quem o cometeu, terá que ser castigado.
Normal, até aqui tudo normal. Excetuando que os autores de ambos os assassinatos apenas estão a ser perseguidos pelas autoridades...Israelitas. Palestinianas, como se costuma dizer, tá quieto. Algumas das ditas até glorificaram o ato. Até o "tweetaram" como, á falta de presença no Mundial, uma espécie de Hat-Trick da Palestina. 
Detestável, tremendamente detestável. Por aqui se pode ver quem pretende e luta pela paz e quem não o faz. De um lado, um estado de pleno direito, democrata e tal e que não aceita crimes cometidos contra os seus cidadãos, nem por parte destes. Do outro, um estado que quer ser permanentemente uma espécie de país em potência, para poder fazer pirraça ao pessoal vizinho e não os deixar viver a sua própria vida.
P.S. Ainda se suspeitou que o moço muçulmano era homossexual e que tenha sido morto por isso. A ser assim, às mãos do Hamas. Mas não, foram mesmo os Israelitas. Não tarda está nas manchetes dos jornais e a passar no rodapé dos telejornais.

Sétima Epístola

Linha do Tram no Centro de Cracóvia, Vitor Vicente, Julho de 2014

Dear T.,

Volto a sentir-me em casa, tal como em Praga. Não só em Kazmierz, senão por toda a cidade.
Da janela deste quarto de Cracóvia, tal como no respetivo em Praga, vejo-te passar. Exato, a ti, a quem teimo em tratar-te por T. Por insistir em chamar-te de Transilesiano, espécie de primo do Transiberiano, por quem tenho maior empatia do que pelo elétrico 28 de Lisboa.
(Um pequeno parênteses para constatar o espanto dos estrangeiros que conheço e que tentam, sem sucesso, "pegar comigo" com referências a portuguesas coisas. Não é culpa dos ditos, mas eu deixei a Pátria cedo, com vinte e três anos, e emociono-me mais quando me contam episódios de Barcelona ou de Dublin). 
Voltando a ti, T. Que continuo a ver passar de um lado para o outro. Que aposto seres o mesmo que eu vi que passar da janela do quarto de Praga. (Não vou abrir parênteses para Praga, por caber a esta epístola estar no encalço do "tram"). 
Todos os "trams" são um e o mesmo. Todos ligam - e convidam-me às - cidades que eu não conheço e onde me iria sentir em casa. Porque todos os "trams" do Leste proporcionam viagens no tempo e no espaço. Todos são parte do palco ambulante dos poetas saudosistas que, tal como os respetivos futuristas, ficam frenéticos com as máquinas - no caso, com calhambeques e ferrugem velha afim.
(Por falar em saudade, abra-se um pequeno parênteses para a sede. Sim, eu tinha saudades de ter sede, do desespero por uma bebida fresca, em hidratar-me e sentir-me um humano outra vez. Em Dublin podem-se contar pelos dedos de uma mão os dias em que se sente sede, em que uma pessoa se sente seca. Essa sensação apenas fez parte dos dias em que se viaja, é pertença (a posteriori, lembrança) das férias.)
Viajar, viajo agora sempre que, daqui do quarto, te ouço passar. Viajo sem que do quarto, sequer, tenha que sair.